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WebRádio Cultura Viva

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

PANELAS SELETIVAS
















Em tempos de ódio, as panelas não serão minha arma. Porque, quando as pessoas protestam contra a reintegração de posse e os donos do poder jogam a polícia em cima dos manifestantes, agindo como segurança particular do grande empresário que não cuidou do seu patrimônio, NINGUÉM bate panela nas sacadas.

Quando as pessoas não são ouvidas pelo poder público, ao solicitarem a instalação de um semáforo naquele trecho da estrada onde todos os dias alguém da comunidade é atropelado, e para terem atenção, precisam queimar pneus no meio da pista, NINGUÉM bate panela nas coberturas.

Quando moradores de rua são mortos numa visível “limpeza social”, e a notícia é abafada e some num passe de mágica, NINGUÉM bate panela nos apartamentos.

Quando a mulher sofre com o número cada vez mais assustador de agressões e assassinatos e com a forte exclusão por preconceito, NINGUÉM bate panela nas janelas.

Quando o poder público, em parceria com empreiteiras, invade, destrói e desapropria lugares onde estavam pessoas esquecidas por ele próprio, NINGUÉM bate panela do conforto do seu lar em algum bairro rico.

Quando o negro sofre racismo, desde olhares e baculejos à agressões e imposições de seu lugar na sociedade, NINGUÉM (Lógico) bate panela nos condomínios de rico.

Quando a polícia e a imprensa tratam suspeitos de acordo com sua conta bancária, NINGUÉM bate panela nas mansões.

Em tempos de ódio, eu sei quem levanta a bandeira de lutas com convicção. E eu sei quem não aceita o rumo democrático de uma nação. Eu sei quem está se utilizando da liberdade da democracia para pedir a mordaça da ditadura.

Em tempos de ódio, eu sei de que lado estão os racistas, os fascistas, os homofóbicos, os machistas, os xenófobos seletivos, os coronéis do latifúndio, os reacionários, os amantes do nazismo, os defensores dos muros... Eu tenho lado! E NÃO é do lado deles. O oportunismo e os tempos de ódio não mudam pessoas. Elas simplesmente mostram quem são. Logicamente existem pessoas que são manipuladas a contribuir com o ódio. Mas se elas não forem assim, logo acordam e se afastam.

Em tempos de ódio, a escória se sente protegida e sai do subterrâneo. É assim que a KU KLUX KLAN faz filiais.

Mas nem tudo é fatalismo! Em tempos de ódio, eu olho ao meu redor e vejo que não estou sozinho. Vejo que minha posição não é só minha. Em tempos de ódio, eu identifico quem enfrenta racistas, fascistas, homofóbicos, machistas, xenófobos seletivos, coronéis do latifúndio, reacionários, amantes do nazismo, defensores dos muros...

Eu sei quem apimentou o verde e o amarelo com ódio. E eu sei quem (e porque) carrega o vermelho, não apenas nas vestes, mas no sangue. Aliás, eu também sei quem (e porque) insiste em querer mudar a cor do próprio sangue para azul, mesmo que só metaforicamente, mas para ser diferente (em atos de segregação).

Em tempos de ódio, eu sei quem tem bala na agulha e quem tem argumentos de verdade. Eu sei quem tem veneno e quem tem propriedade. Eu sei quem discute sem profundidade e quem discute indo buscar a raiz de tudo.

Eu sei quem me chama de radical e ao mesmo tempo não aceita meus argumentos.

Em tempos de ódio, eu sei por que uma única pessoa desperta a ira da escória, pelo simples fato de posicionar-se contra o ódio.

Em tempos de ódio, uma imagem vale muito mais do que todas as panelas do topo da pirâmide juntas.


Texto: André Agostinho
Foto: Luciano Marra

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