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WebRádio Cultura Viva

quinta-feira, 12 de março de 2015

O PASSADO QUE NÃO FOI EMBORA















Sinceramente... A luta é maior do que se imagina.

Como pode alguém incluir uma série de equívocos numa só frase? Bom... A pessoa que escreveu isso aí conseguiu. Não me refiro a ela ser a favor ou contra cotas. É uma opinião dela. Respeito, embora ache algumas justificativas, verdadeiras aberrações, como a frase feita que diz: “Isso é preconceito ao contrário”. Santa estupidez né?!

Mas voltemos à frase!

Eu li e me perguntei: “Como assim ‘passagem de volta pra África’”? Talvez ela não saiba (Por isso escreveu tanta besteira numa frase só) que negros e crioulos (africanos e brasileiros) não precisaram estar em solo africano para serem escravizados. Foi em solo brasileiro mesmo. Eu não precisaria “voltar”. Já piso todos os dias onde pessoas foram (e são) escravizadas, estupradas, excluídas e chicoteadas rotineiramente.

Aí me perguntei de novo: “Como assim ‘passado que nem viveram’”? Eu vivo isso todos os dias. Eu sou açoitado todos os dias. Sou excluído todos os dias. Escuto piadas todos os dias. Sou colocado à margem da sociedade todos os dias. Sou reflexo de uma abolição onde as pessoas que se tornaram livres foram obrigadas a pedir para voltar para as terras onde foram violentadas de todas as formas, porque a abolição chegou amputada. Jogaram os ex-escravizados nas ruas, disseram: “Te vira” e ainda pediram indenização, quando o correto seria o contrário.

Eu sou a parte da sociedade que ao longo destes quase 130 anos de “abolição”, foi levada a buscar primeiro, a informalidade ou o emprego onde se paga miséria e é preciso engolir, pela falta (imposta) de perspectiva. Fui condicionado a outro tipo de escravidão e imposições ao longo da história desse país. E isso não é um discurso de “coitadinho”. É um fato.

Será que a mocinha da frase conseguiria me informar os motivos do preconceito e do racismo contra negros? Basta que ela explique o porque essa segregação no Brasil. Eu vivo SIM, a época das correntes e dos troncos. E não é porque escolhi. Eu vivo isso porque os senhores de engenho continuam chicoteando. E a mocinha (que bem notamos traços diferentes do que ela afirma ser no pouco que conseguimos enxergar por trás do papel onde está a frase absurda) demonstra total ausência de essência e de conhecimento sobre o que se vive no Brasil.

Não apenas pelo passado que ela acha que não alcançamos. Mas pelo presente que é o reflexo de um país onde um dos maiores matadores de negros da nossa triste história (Duque de Caxias), é visto como herói da sociedade. Patrono da Nação. Mas a mocinha talvez nem saiba quem foi José do Patrocínio. Talvez não tenha ouvido falar de Carolina Maria de Jesus... Ou Auta de Souza... Ou Joaquim Nabuco... Ou José Mariano...
 
Cito pessoas que, independente da pigmentação na pele, lutaram. Seja pela liberdade de pessoas escravizadas. Seja pela autoafirmação. Cada um no seu momento. E hoje essa luta continua. E não podemos sequer cochilar, senão os flagelos aumentam. De cada 3 pessoas que são assassinadas nesse país, duas são negras. E a mocinha vem dizer que não vivemos a história da escravidão?

Vivemos num país onde o ex-presidente Fernando Henrique Cardozo, ao citar seu lado “afro” disse “eu também tenho um pé na cozinha”. Em poucas palavras ele demonstra onde, na visão dele, é o lugar do negro e da negra na sociedade. Isso não é teoria da conspiração nem neurose. Até porque nem foi dito por mim. E a mocinha vem dizer que não vivemos a escravidão?

Lembro agora do que se falava de Machado de Assis. Pela sua qualidade, era chamado pela burguesia de “negro de alma branca”. Aí pergunto de novo: A mocinha vem me dizer que não vivemos a escravidão?
Talvez ela se ache uma negra de alma branca... E nesse caso, confesso que, em parte, concordo com ela. A alma branca dela, é a alma dos brancos que segregaram e segregam.

Nunca vou baixar a cabeça para os muros que são erguidos na nossa frente. Até porque as pessoas escravizadas não desistiram um só minuto de sua liberdade. Comigo não seria diferente. Porque continuamos vivendo no calabouço. 


André Agostinho/DIRETOdosMANGUEZAIS

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/a-necessidade-das-cotas-raciais-num-pais-como-o-brasil.html

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