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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A IGREJA DOS MARTÍRIOS E A HISTÓRICA DESTRUIÇÃO DOS PATRIMÔNIOS























A IGREJA DOS MARTÍRIOS tem uma história que se entrelaça com um crime ao patrimônio. Situada no centro do Recife, esta igreja foi construída por negros e crioulos(*), e, segundo pesquisadores, o lugar mantinha uma atividade secreta, onde aconteciam estratégias em defesa da abolição. Entre as estratégias estava a arrecadação de fundos por intermédio das Juntas de Alforrias que ajudavam os negros em sua luta pela libertação.
Sua construção foi iniciada em 1791, sendo concluída em 1796. Sua fachada principal era em estilo rococó (última fase do barroco).
Foi a partir de sua construção, que a procissão do Senhor Bom Jesus dos Martírios se consolidou e, por cerca de cem anos, era a primeira a sair pelas ruas do Recife, marcando o início da quaresma.

A partir do início da década de 1940,começaram os planos do poder público, de revitalizar o centro do Recife, com projetos que envolviam a construção da Av Dantas Barreto, para, segundo os donos do poder, dar caminho ao progresso.
A proposta original da avenida, de Ulhôa Cintra, foi aprovada em 1943 e gerou fortes e longas discussões a favor e contra a sua construção. Já no final da década de 1940, anos seguintes e, na prática mais intensa, nas décadas de 1960 e 1970, período das duas gestões do prefeito Augusto Lucena, o Bairro de São José começou a sentir o peso da arrogância e do descaso com sua história.
Foram destruídas mais de 400 casas, 11 ruas (como a Rua Augusta, rua Santa Teresa e rua do Alecrim, além de destruir parcialmente o Pátio do Carmo. No meio de todas as devastações, houve demolições no Bairro de Santo Antônio e a histórica e bela Igreja do Senhor Bom Jesus dos Martírios, ou IGREJA DOS MARTÍRIOS, como mais conhecida.
Um detalhe é importante ser lembrado: No projeto inicial da avenida Dantas Barreto, o local que seria destruído, era o Pátio de São Pedro. No entanto, a igreja de São Pedro já era um Patrimônio tombado. Na modificação, a vítima passou a ser a Igreja dos Martírios, que não era tombada. Na época, já existia no Recife, o 1º Distrito do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, depois DPHAN e, hoje, IPHAN), que se colocou contra a destruição do local.
O DPHAN propôs alternativas para evitar que a construção a avenida destruísse a igreja e outros patrimônios. Inclusive o local entrou em processo de tombamento, atendendo a solicitação da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios, que recorreu ao Conselho Estadual de Cultura, e o IPHAN providenciou o tombamento, conseguido em 23 de junho de 1971, o que irritou o prefeito Augusto Lucena,que, ao voltar ao cargo na década de 1970, tendo o auge da Ditadura Militar como seu aliado, solicitou o CANCELAMENTO DO TOMBAMENTO do prédio, alegando falta de segurança e desuso. O prefeito ameaçou até lançar mão do apoio legal que o poder municipal tinha de destruir edificações que ameaçassem a integridade da população, caso a igreja se mantivesse de pé.
A prefeitura teve forte oposição quanto ao assunto, mas ganhou apoio sombrio de alguns historiadores, além de mais da metade da bancada de vereadores da Câmara Municipal, da maioria dos deputados estaduais, de alguns deputados federais, entidades de classe patronal e empresarial, dos membros do Conselho Municipal de Cultura e de algumas entidades civis e religiosas, inclusive (pasmem) da Arquidiocese.
Como era de se esperar, o então presidente Emílio Garrastazu Médici, assim como o Ministro da Educação Jarbas Passarinho, apoiou o prefeito Augusto Lucena, assinando, em 11 de abril de 1972, o Decreto 70.389, que autorizava o cancelamento do tombamento da Igreja dos Martírios.
A partir daquela manobra, não havia mais o que fazer. Na manhã de 23 de janeiro de 1973, a Igreja dos Martírios foi derrubada. Em setembro do mesmo ano, a Avenida Dantas Barreto foi inaugurada.
O que restou da igreja (como sino e portas) pode ser visto em exposição permanente no Museu da Cidade do Recife.
Com os rumos de destruição do Patrimônio, em defesa do que o poder público define como “reformas urbanas” Recife perdeu três igrejas: Igreja do Corpo Santo (1913); Igreja de Nossa Senhora do Paraíso (1944); E Igreja dos Martírios (1973).


Foto da publicação: Alcir Lacerda


(*)No período de colônia e escravidão no país, negros eram os que chegavam da África. E crioulos eram os negros que nasciam no Brasil.

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