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WebRádio Cultura Viva

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

UM POVO QUE NUNCA DORMIU

















Fico pensando nas pessoas que acham verdade na frase que diz: “O Brasil acordou.” Como assim? Ele dormiu? Então eu preciso rever meus conhecimentos.



Porque Eu acho que todas as revoluções dos quilombos deste país, mantiveram o seu povo acordado na luta até numa época onde a escravidão era “permitida”. Pessoas que desafiaram um sistema, que passou a espalhar a informação de que os quilombolas eram perigosos e vândalos.



Eu sempre me orgulhei da ação de Antônio Conselheiro e seus seguidores na bela saga de Canudos. Desafiou o sistema. O mesmo sistema que quis espalhar a informação que Conselheiro não passava de um fanático religioso apaixonado pela monarquia.


Eu sempre admirei os cortejos das Nações (depois chamadas também de Maracatu), em seus rituais de coroação e louvações nas ruas de uma Recife sitiada, assim como todo o Brasil escravagista, tentando manipular os ritos a fim de conhecer seus líderes, mas que o tempo fez com que a estratégia dos carrascos se transformasse em foco de resistência. E quando o sistema se viu ameaçado, espalhou a notícia de que aquilo era coisa do diabo.



Acompanho as histórias do Cangaço, me transportando para todas as dificuldades da época imposta pelo coronelismo ”legalizado” pelo poder maior do país. Uma imposição ditatorial absurda. O Cangaço surgiu com várias motivações. Mas todas elas tinham um nascedouro: O poder sanguinário dos coronéis, com suas armas, suas regras, seus capangas e sua posição acima da lei. O Cangaço desafiou o sistema... E adivinhem: O sistema fez valer o poder de seus boatos, e muita gente acreditou que os vilões eram os cangaceiros. O cangaço acabou, Lampião morreu, os coronéis seguiram, os flagelos continuam e ainda tem quem ache que a culpa é do cangaço...



Eu poderia falar de Zumbi, de Diógenes Arruda, de Gregório Bezerra, de Margarida Alves, de Teresa de Benguela... Poderia citar tanta gente de tantas épocas, que não caberia num livro.



Eu poderia citar a luta das pessoas que, durante o período das intervenções, foram impedidas de praticar suas crenças religiosas, quando candomblecistas e umbandistas eram perseguidos. O sistema (ele de novo) jogou para a sociedade, que ali estavam os rituais do mal. Hoje, ainda há reflexo desta covardia do sistema. Mas os resistentes lutaram (e lutam) pela autoafirmação.



Eu poderia citar os movimentos dos trabalhadores rurais e seus assentamentos, que educam, alfabetizam, são responsáveis por boa parte da agricultura familiar, pelos alimentos orgânicos e lutam todos os dias pelos seus direitos. E lá vem ele... O sistema... Colocá-los como vilões.



Eu poderia citar a comunidade de anônimos que queimam pneus na estrada para chamar atenção pelos maus tratos no seu chão e na sua rotina. Como um amigo comentou: “As pessoas queimam pneus na estrada, porque se gritarem lá de cima, na comunidade, ninguém se importa.”



Então, amigos e amigas, perdoem-me o desabafo, mas ao longo de toda a história deste país, desde a invasão, TODAS as décadas, acontecem revoltas, protestos e revoluções. Alguns destes momentos são vistos pela sociedade como coisa de desocupados.



Agora não seria diferente. Meu medo é que o próprio sistema vem ecoando essa história de que o gigante acordou.



Ele nunca dormiu. Foram algumas pessoas que se esqueceram de olhar o país mais de perto.



André Agostinho

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